Abril 21, 2008

MÁ INFLUÊNCIA

Finalmente terminei de ler o “Bad influence”, do William Sutcliffe (London: Penguin Books, 2005). Comprei o livro no final de 2005 e li as primeiras cento e trinta páginas em pouquíssimo tempo, mas depois abandonei. Daí que na semana retrasada retomei a leitura sem interrupções.

Sempre lembro do “Senhor das moscas”, do William Golding, quando aparecem cenários onde transcorre a maldade infantil. O “Mãos de cavalo”, do Daniel Galera tem um pouco disso. A infância sempre carrega as suas tragédias - e os escritores sempre carregam suas infâncias, mesmo quando fogem delas - e toda vez que (ou: muitas vezes quando) um adulto se vê em situações-limite (as de sociabilidade seriam as mais comuns) tende a reagir como criança.

A violência e os vícios adultos são infantis, há coisas não-resolvidas (ou que parecem resolvidas), que num contexto propício podem desestabilizar. Alguns poemas do “Senhor escuridão” (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006) flertam com essa possibilidade, com essa instabilidade, tratando-as, por vezes, como pesadelos.

Não gosto do rótulo romance de formação. O homem está sempre em formação, prefiro a idéia de romance de causa, não que isso tenha qualquer importância.

Parece que o “Bad influence” foi traduzido para o português, vou conferir na Cultura daqui a pouco. Se foi mesmo, torço para que a tradução tenha mantido as sutilezas do original (não, não é trocadilho). A propósito de tradução: não gostei da tradução brasileira do “A estrada”, do Cormac Maccarthy, que é um autor que pode ser banalizado com facilidade se não detectados certos detalhes da sua prosa tão seca (seca demais, eu diria, embora com alguma genialidade).

Uma das soluções narrativas do “Bad influence” é a inserção de ilustrações de página inteira em meio à prosa. Acho que essa estratégia pode funcionar muito bem. Depende do conjunto. Simpatizei bastante com algumas, com outras bem menos.

No momento, tenho personagens que vivem num cenário parecido com o do “Bad influence”. A infância é sempre universal. Imaginário caótico. Alice. Tenho arquitetado um pequeno abismo de maldades infantis, que me fazem percorrer as (poucas, é verdade) maldades da minha infância. É a primeira vez que confronto minha memória desse jeito.

Sempre tem uma primeira vez (não, não é auto-biográfico), embora no universo literário ela (a primeira vez) sempre desapareça: escritores nunca são inocentes. Há uma exótica predileção pelos resquícios, detalhes que para outros simplesmente ficam para trás.

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