Abril 26, 2008


TRÊS SÁBADOS


Tenho uns amigos que se reúnem três sábados seguidos para jantar, numa espécie de janta emendada ou janta dividida em três atos: a seguinte começa do ponto onde a anterior terminou. As comidas são congeladas, as bebidas são guardadas e tudo prossegue de onde parou. Novos pratos podem ser preparados, claro, sem o descarte dos antecessores. As conversas, em tese, também são retomadas (com todos os agravantes da semana que serviu de intervalo). A trilha sonora da bizarrice, dentre outras menos emblemáticas, são as músicas da banda escocesa Arab Strap (uma das minhas preferidas).

O Arab Strap faz músicas introspectivas mescladas com crítica-irônica, sordidez e apelo sexual. Gosto de bandas que têm apelo pop e ainda conseguem manter uma vivacidade melancólica.

Não quero ser pedante, mas melancolia e vivacidade formam uma combinação difícil. Na literatura brasileira contemporânea quem melhor conseguiu isso, na minha opinião, foi o Luiz Sérgio Metz, nas tantas vezes que narrou o pampa sem o tradicional recalque.

A Escócia é melancólica e não é recalcada (as pessoas lá são legais, diferente dos parisienses que são bastante recalcados e não são melancólicos). Eu gostava da idéia do Rio Grande do Sul ser a Escócia do Brasil, principalmente por não ter tal afirmação outro fundamento que não o puro e simples impacto estético da frase.

Lembro de um dia em que eu e meu irmão fomos até o Loch Ness com duas amigas, era um final de tarde. Foi a paisagem mais melancólica que presenciei na vida. Estava começando a nevar, tirei as botas para molhar os pés, fiquei olhando a névoa que pairava rente às sinuosidades do lago.

Depois, quando os três já estavam irritados de tanto me esperar, fomos até um café, onde pedimos chocolate quente. Nas caixas de som estava tocando “It’s my life”, da banda inglesa Talk Talk.

Melancolia é uma espécie de embriaguez. Por alguns minutos aquele céu do Loch Ness me pareceu o de Porto Alegre (nos raros dias de cerração ou quando faz frio e está para escurecer; assim como neste exato momento). Não adianta, levamos nossa casa pra qualquer lugar aonde formos.

Até onde me lembro, foi nesse dia em que depois de uma conversa com meu irmão abandonei categoricamente uma convicção política que, até então, era para mim bastante importante.

Quando pegamos a estrada de volta para Londres, coloquei Talk Talk no toca-fitas do carro (Talk Talk era o Arab Strap de 1989; ano em que eu desdenhava de quem dissesse que eu levava jeito para escrever).

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