Junho 22, 2008

LEVANDO


“O primeiro osso quebrado
depois de tantos corações partidos
é quase indolor.” (Ana Paula de Freitas)

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Junho 1, 2008

QUANDO CRESCERMOS…


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Maio 28, 2008

UM NOME FALSO PARA ESTE NOSSO HORIZONTE


Assim que procura esquecer
descobre que moramos numa
história em quadrinho de
açoites, encadernada numa
grossa & grisalha linha náilon
de integridade que é só o resto
de nuvens de palha de aço
escorando um prédio pronto
pra cair, embora suas paredes
ofereçam a permanência deste
fungo extenso que há meses
brota com a cor da noite.

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Maio 23, 2008

RAIZ ATÉ O MEIO DA ÁRVORE


Hare, que rara
de matelassê
nas nucas dos
colchões que
você fez com
o arroz de seu
casamento e
agora usa de
âncora nos
miolos fundos
das flores.

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Maio 21, 2008

UM AMOR CEGO PARA SE ORGULHAR


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Maio 9, 2008

POR ANDRÉA DEL FUEGO


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Maio 8, 2008

RECIBO DA DIVERSÃO


Abril 30, 2008

EU, ENQUANTO JOVEM CANSADO


Tempo atrás disse que blog é ponto de venda, depois que postava para tirar uma onda com o mundo das literatices e, por fim, que ainda pairam dúvidas sobre o real talento desta (minha) geração de escritores.

A escolha de ter um blog e ousar determinadas afirmações é um modo irônico de desmitificação da literatura (ora, eu cometo literatices, Machado de Assis cometeu algumas, raras, James Joyce et cetera). A pluralidade de milhões de blogs reforça esse contexto. Mesmo no excesso quantitativo, todos ganham.

Ademais, critérios definidores do que é bom são sempre critérios parciais, são subjetividades.

Os critérios dos editores das revistas, jornais e das próprias editoras de livros são inevitavelmente parciais e limitados. É muito difícil identificar e contemplar, no plano do absoluto, o que verdadeiramente há de melhor.

Concursos e prêmios literários também são assim. Há uma comissão e a partir da biografia, dos preconceitos, das inquietações e carreirismos daquelas pessoas escolhidas se chegará ao julgamento que definirá o melhor de todos.

É um universo bastante frágil.

Vez e outra alguém me escreve pedindo conselhos e dizendo que me admira por eu ter conseguido “chegar lá”. Diz que admira os meus projetos e me parabeniza por terem sido eles “ótimas estratégias para me tornar conhecido”.

Tendo a pensar que comentário dessa ordem é ponto de vista de quem, de fato, me respeita, mas não sei exatamente se na condição de escritor. Até hoje não recebi nenhum convite de editora baseado, em maior ou menos grau, nos meus projetos (que faço por pura diversão).

Toda rara vez que surgiu um convite foi da seguinte forma: li o seu livro, gostei, minha editora está interessada nos teus futuros trabalhos, você tem alguma coisa inédita para me mostrar?

Quero dizer que: se você escreve, o momento da produção é o que vale toda a empreitada. Editoras, prêmios, matérias com foto nas revistas são coisas importantes, mas não injetam qualidade dentro de nenhum texto, de nenhuma obra.

Perseguir uma estética própria, original, consistente, apesar das falhas que sempre há, sinceramente, é só o que interessa (não suporto esta conversa de que a estética não vale nada; se não vale então vá escrever noutra área; uma boa idéia não sustenta nada, importante é como você vai contá-la).

Todos querem mostrar seu trabalho e ser conhecidos (eu também quero), senão nem teriam blogs. Mas o juiz do que você faz tem de ser você mesmo - e como isso é difícil. No final das contas e para responder de vez ao que, desavisadamente, me pede dicas de sobrevivência no mundo literário (diabos, quem sou eu pra isso?), acho que é na perseguição que está o frescor: vai do jeito que mais te anima. A vitória, o reconhecimento são bons, mas envelhecem, faça você o que fizer, pague o preço que pagar pelo maldito hype, admita, os prêmios sempre envelhecem.

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Abril 26, 2008


TRÊS SÁBADOS


Tenho uns amigos que se reúnem três sábados seguidos para jantar, numa espécie de janta emendada ou janta dividida em três atos: a seguinte começa do ponto onde a anterior terminou. As comidas são congeladas, as bebidas são guardadas e tudo prossegue de onde parou. Novos pratos podem ser preparados, claro, sem o descarte dos antecessores. As conversas, em tese, também são retomadas (com todos os agravantes da semana que serviu de intervalo). A trilha sonora da bizarrice, dentre outras menos emblemáticas, são as músicas da banda escocesa Arab Strap (uma das minhas preferidas).

O Arab Strap faz músicas introspectivas mescladas com crítica-irônica, sordidez e apelo sexual. Gosto de bandas que têm apelo pop e ainda conseguem manter uma vivacidade melancólica.

Não quero ser pedante, mas melancolia e vivacidade formam uma combinação difícil. Na literatura brasileira contemporânea quem melhor conseguiu isso, na minha opinião, foi o Luiz Sérgio Metz, nas tantas vezes que narrou o pampa sem o tradicional recalque.

A Escócia é melancólica e não é recalcada (as pessoas lá são legais, diferente dos parisienses que são bastante recalcados e não são melancólicos). Eu gostava da idéia do Rio Grande do Sul ser a Escócia do Brasil, principalmente por não ter tal afirmação outro fundamento que não o puro e simples impacto estético da frase.

Lembro de um dia em que eu e meu irmão fomos até o Loch Ness com duas amigas, era um final de tarde. Foi a paisagem mais melancólica que presenciei na vida. Estava começando a nevar, tirei as botas para molhar os pés, fiquei olhando a névoa que pairava rente às sinuosidades do lago.

Depois, quando os três já estavam irritados de tanto me esperar, fomos até um café, onde pedimos chocolate quente. Nas caixas de som estava tocando “It’s my life”, da banda inglesa Talk Talk.

Melancolia é uma espécie de embriaguez. Por alguns minutos aquele céu do Loch Ness me pareceu o de Porto Alegre (nos raros dias de cerração ou quando faz frio e está para escurecer; assim como neste exato momento). Não adianta, levamos nossa casa pra qualquer lugar aonde formos.

Até onde me lembro, foi nesse dia em que depois de uma conversa com meu irmão abandonei categoricamente uma convicção política que, até então, era para mim bastante importante.

Quando pegamos a estrada de volta para Londres, coloquei Talk Talk no toca-fitas do carro (Talk Talk era o Arab Strap de 1989; ano em que eu desdenhava de quem dissesse que eu levava jeito para escrever).

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Abril 24, 2008

DO MESMO JEITO


Algumas pessoas idolatram Porto Alegre. É fácil entender. Entre figuras estranhas e carismáticas capazes de se acotovelar nuns dos metros quadrados mais competitivos, neuróticos e criativos do país, aqui vive Júpiter Maçã.

O sujeito, sem qualquer favor na eleição, é dono de uma das obras musicais mais consistentes e instigantes desta primeira década do século.

Coisa de ano e meio, passou a circular na internet esta composição chamada “As mesmas coisas”, que está no recente “Uma tarde na fruteira” (Monstro, 2008); a música não sai da minha cabeça e, ainda por cima, tem a manha de ironizar a nossa sutil (extremamente rica e complexa) incompatibilidade com Portugal.

Copiei a letra aí, e abaixo um youtube disponibilizado há três dias.

Nós gostamos das mesmas coisas
Nas pessoas os seus amores
Apreciamos nas flores as cores
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola

Nós usamos as mesmas roupas
Nós gostamos dos mesmos discos
E, nos filmes, a trilha sonora
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola

Nós dançamos do mesmo jeito
Os cabelos do mesmo jeito
Nós amamos os mesmos amigos
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola

Nós fazemos as mesmas coisas
Nós falamos as mesmas coisas
Nosso idioma é a mesma língua
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola

Eu vou mandar um bilhetinho
Por terceiros com carinho
Vou fazer um convite bacana
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola
E você sabe, meu amor, não rola
E você sabe, meu amor, não rola

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Abril 21, 2008

MÁ INFLUÊNCIA

Finalmente terminei de ler o “Bad influence”, do William Sutcliffe (London: Penguin Books, 2005). Comprei o livro no final de 2005 e li as primeiras cento e trinta páginas em pouquíssimo tempo, mas depois abandonei. Daí que na semana retrasada retomei a leitura sem interrupções.

Sempre lembro do “Senhor das moscas”, do William Golding, quando aparecem cenários onde transcorre a maldade infantil. O “Mãos de cavalo”, do Daniel Galera tem um pouco disso. A infância sempre carrega as suas tragédias - e os escritores sempre carregam suas infâncias, mesmo quando fogem delas - e toda vez que (ou: muitas vezes quando) um adulto se vê em situações-limite (as de sociabilidade seriam as mais comuns) tende a reagir como criança.

A violência e os vícios adultos são infantis, há coisas não-resolvidas (ou que parecem resolvidas), que num contexto propício podem desestabilizar. Alguns poemas do “Senhor escuridão” (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006) flertam com essa possibilidade, com essa instabilidade, tratando-as, por vezes, como pesadelos.

Não gosto do rótulo romance de formação. O homem está sempre em formação, prefiro a idéia de romance de causa, não que isso tenha qualquer importância.

Parece que o “Bad influence” foi traduzido para o português, vou conferir na Cultura daqui a pouco. Se foi mesmo, torço para que a tradução tenha mantido as sutilezas do original (não, não é trocadilho). A propósito de tradução: não gostei da tradução brasileira do “A estrada”, do Cormac Maccarthy, que é um autor que pode ser banalizado com facilidade se não detectados certos detalhes da sua prosa tão seca (seca demais, eu diria, embora com alguma genialidade).

Uma das soluções narrativas do “Bad influence” é a inserção de ilustrações de página inteira em meio à prosa. Acho que essa estratégia pode funcionar muito bem. Depende do conjunto. Simpatizei bastante com algumas, com outras bem menos.

No momento, tenho personagens que vivem num cenário parecido com o do “Bad influence”. A infância é sempre universal. Imaginário caótico. Alice. Tenho arquitetado um pequeno abismo de maldades infantis, que me fazem percorrer as (poucas, é verdade) maldades da minha infância. É a primeira vez que confronto minha memória desse jeito.

Sempre tem uma primeira vez (não, não é auto-biográfico), embora no universo literário ela (a primeira vez) sempre desapareça: escritores nunca são inocentes. Há uma exótica predileção pelos resquícios, detalhes que para outros simplesmente ficam para trás.

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