FLIP EM FLORES & INVERNO
Em 2006, fui a Parati como convidado do OFF-FLIP, acumulando a função de correspondente do Portal Terra encarregado da cobertura da Flip Oficial. Algumas regalias, muitas horas na frente do computador. Foi a última vez, até que foi divertido.
Este ano, queria estar lá para assistir a mesa do João Gilberto Noll e da cineasta Lucrecia Martel, um dos pontos altos de uma edição que, na minha opinião, está bastante assimétrica (algo entre irregularidade e repetição sutil).
No geral, tenho a impressão de que o evento perde aos poucos o frescor, perde na medida em que ganha uma popularidade estranha e vira uma feira de cartões.
A oficina de roteiro deste ano é o que há. O resto é gente se equilibrando no piso irregular, baladas, babação, badalação e, sobretudo, fingimento de que existe algo além da velha seita dos três mil leitores.
PS. Acho que a primeira mesa deste ano (a dos novos) deveria ter sido encaixada mais para o final do evento, isso sim daria a visibilidade merecida para quem está começando.
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LOCUTORES DE RÁDIO
Ontem durante uma entrevista a rádio UNISINOS, falando sobre minha infância, lembrei de quando tinha seis anos e, no meio das tardes, escapava para visitar uma vizinha surda muda. Ela tinha minha idade, seu pai era carroceiro e sua mãe gostava da minha família, dizia que admirava muito minha mãe, ela estava sempre na cozinha fazendo doces. Lembro do cheiro de bala de coco no ar.
Não consigo me lembrar do nome da menina, lembro apenas dela me mostrando os seus brinquedos, alguns meio quebrados. Havia duas bonecas, uma boneca negra e outra branca, que ela insistia em me mostrar. Um dia, quando cheguei, ela estava me esperando com duas alianças, dessas que vinham de brinde nas guloseimas que se comprava nos armazéns do bairro (e, desta vez, suas duas irmãs mais velhas estavam em casa e também estavam me aguardando). Fiquei uns minutos, não deu tempo de acontecer nada.
No dia seguinte meu irmão menor me disse que todos sabiam que eu tinha uma namorada. Meu irmão sempre foi mais maduro que eu. Ontem, no meio da entrevista, me dei conta que aquela menina (que morava na casa em frente à nossa) foi minha primeira musa e que, de certa forma, não me perdôo por, naquele dia, ainda ser criança e não entendê-la melhor.
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VIVENDO DE CEGUEIRA & MEMÓRIA
Na quarta-feira passada fui até a Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre para ler alguns textos da minha produção recente. Aconteceu uma coisa estranha, comecei a falar logo após a apresentação feita pelo coordenador municipal do livro e não parei para ler texto nenhum, comecei a falar da condição estranha que cerca qualquer leitor desta minha cidade (e, até em maior grau, do resto do país).
Para meus primos e a maioria esmagadora dos amigos de bairro, por exemplo, se alguém tivesse o hábito de trazer sempre um livro consigo e, sem qualquer anúncio solene, o abrisse para uma leitura casual aquilo era das coisas mais bizarras do mundo. Uma vez, no início dos anos oitenta, eu estava na calçada de casa lendo o “Senhora das flores” do Jean Genet quando uma conhecida que estava passando veio e sentou do meu lado pedindo para ver o livro. Ficou pouco mais de cinco minutos com o livro na mão e me entregou dizendo que não sabia como eu conseguia ler aquelas coisas.
Emendei à primeira parte da conversa na SMC elucubrações sobre influência do rap no meu modo de escrever, falei da leitura (audição) atenta que sempre fiz dessa estética que é muito peculiar e que talvez tenha sido a última grande novidade musical do século XX (não se esqueça que a música eletrônica veio antes), por fim, falei da sorte de conseguir ser fã (ter o despreendimento de ser fã) dos amigos próximos que escrevem, tocam, ilustram, filmam e por aí.
Somente quando faltavam menos de dez minutos pro término foi que li um poema violento e dois poemas de amor. A expressão no rosto das pessoas (havia entre quarenta e cinqüenta pessoas no lugar) depois de uma leitura - mesmo que a palestra tenha sido das melhores - é sempre mais explícita e cúmplice do que as que as reveladas durante a exposição, a entrevista, a conversa.
Lembro que das vezes que assisti a mesas da FLIP (credenciado uma vez pela Paralelos e outra pelo Terra Magazine) na tenda dos autores, gostei mais das leituras do que dos bate-papos.
Tavez por isso façam tanto sucesso eventos como o Vocabulário, o PóQUET, o Mini Mundo Sem Comercial, o Primeiro Popular. As pessoas querem ouvir, querem ir direto ao que importa. Esse interesse nunca morrerá. Tenho essa predileção por inventar, inquietar, agitar, mas o que me realiza mesmo, como aconteceu no b_arco naquele 24 de maio, é o prazer de ficar misturado à platéia ou atrás do palco escutando as leituras e as surpresas que às vezes vêm de quem você menos espera.
Como disse o Michel Melamed, num debate que tivemos na Rádio Ipanema durante a Feira do Livro de 2005, literatura não tem dono, não tem forma, fica ali esperando no ar, nas ruas até que alguém a reconheça e a aproveite. É a pura verdade, Michel.
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00_ - PORTO ALEGRE
então aos domingos sabia que a gerente do bar ficava sozinha no balcão
e depois do futebol pela tevê descia para encher a cara
e vez e outra pagava umas rodadas aos que estivessem a seu lado
esperava esvaziar e se declarava a ela que lhe devolvia um sorriso impaciente
de quem sabe que é só um ideal no sonho confuso de um homem de meia-idade
que não consegue amadurecer e para quem a vida já começou
a perder o sentido e apesar de tudo tenta ser bom e habituar-se
àquelas garagens sem carros que eram o último lugar legal da cidade
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BELO MESMO
desde que não acabe em roda de violão e sax-tenor
e moças altas com mais de trinta fazendo cara de difícil
enquanto sussuram o quanto estão surpresas e aliviadas
por você que foi o mais notório troglodita do colégio
hoje ser um poeta até ok e desdenhar dos outros poetas
que dão conselhos políticos nos cenários com bancadas
das tevês locais enquanto trêmulas juram que sua mulher
é a pessoa mais bela & meiga da cidade vil de porto alegre
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FALANDO
Hoje pela manhã conversei por quase uma hora com duas estudantes de Letras e respondi a um questionário que segundo elas havia sido preparado com base nas leituras do meu livro de contos e dos meus dois últimos de poesia.
Agora há pouco me peguei pensando sobre as respostas dadas e me deu vontade de transcrever algumas aqui.
Sobre literatura panfletária: disse que é um perigo e, ao mesmo tempo, desculpa barata que só interessa a quem admite fazer um tipo de concessão que jamais deveria existir na literatura.
Sobre o universo gay na literatura: rótulos não servem pra nada - é como insistir nessa conversa de literatura gaúcha, literatura negra, literatura maldita (só para referir três conjuntos dentros dos quais sou incluído eventualmente - não que eu desgoste, só não vejo utilidade nesse tipo de simplificação). A respeito do mundo gay, o que posso dizer é que meus dois jovens escritores preferidos são gays: a escocesa Ali Smith e o americano Michael Cunningham.
Sobre o modismo literário: ele é inevitável e pode ser bom ou ruim. Copiar é quase uma praga. Vejo um monte de escritores querendo ser o Cormac MacCarthy, simplificar como ele simplica; é importante, entretanto, ver todo o caminho que o velho escritor americano teve de percorrer para chegar até aqui.
Sobre o projeto amores expressos: acho que faltaram alguns autores, como João Gilberto Noll e Mário Bortolotto (cheguei a escrever isso no meu blog da Austrália, mas depois apaguei), mas acho que a seleção feita pelo João Paulo Cuenca foi bastante boa. Dentro das circunstâncias, ótima, eu diria. Lamento o fato do Marçal Aquino ter cancelado sua participação (na minha opinião seria o autor melhor talhado para o projeto).
Sobre o fim do Primeiro Popular: o projeto continua. Ainda teremos duas edições este ano.
Sobre o Na Tábua: segue a passos de tartaruga, mas ainda assim segue.
As respostas serão publicadas num blog - como não costumo indicar entrevistas dadas, além deste registro (que me pareceu oportuno), nada mais anotarei.
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DIVIDIDO
Por ter passado muitos verões aqui em Garopaba não me sinto menos catarina do que qualquer um destes que usam os computadores do café internet neste momento. Aqui é minha segunda casa, a primeira é Porto Alegre: sou de uma casa que invade outra (sou das duas).
Quando surfava, levava Sartre, Camus e Genet para ler no final de tarde no momento do chimarrão, aquilo era estranho para alguns amigos, mas eles respeitavam. Gostava da ocasião do silêncio, aquela vagueza era o que mais protegia a todos.
Depois de um tempo passei a chamar os artista de monstros, mas não funcionou, porque nem todo artista é estranho no sentido de monstro (além do que é preciso alguma dose de carisma). Sinto muito que a poesia sirva de desculpa, não é minha intenção. Não escrevo por teimosia, escrevo por falta de opção.
Toda pessoa que envelhece se estranha.
Há pouco, a trezentos metros daqui, quando olhei o mar, recordei as palavras recentes de Fabrício Carpinejar: “(…) decidi me estranhar tanto que ninguém mais seja capaz de identificar o que é mais insólito em mim. É tanta coisa irreverente que o observador demorará boas horas para me classificar. Raspei minha cabeça, pinto as unhas da mão esquerda, uso roupas que são próprias para baladas, com lantejoulas e brilhantes, em plena luz do dia, saio com óculos enormes de gafanhoto e morcego. Não temo o escândalo de minha alegria. Ao invés de esperar o pior, me critico. Não tento ser normal, exagerei as minhas diferenças. Ainda não consigo me defender, em compensação minhas dores me ensinaram a defender os outros.”
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I MONSTER
Há quatro anos gosto desta banda e há quase isso gosto desta música: “Who is she” (piegas na medida certa).
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APERTE “ORDINÁRIO, MARCHE” PARA INCENDIAR
Tenho pesquisado e lido muitas poesias para o tal projeto Orquestra Literária, tenho lido a ponto de enjoar, principalmente daquelas que dizem ao leitor o que fazer: meu amor faça isto, faça aquilo, plante uma árvore, dê um sorriso, beba até morrer, suma na estrada, ouça o canto dos… Poesia que dá ordem é o fim da picada.
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