no domingo a festa foi arrumação de partida
a mala que nunca terminamos de aprontar
lá dissemos que era só um momento
labirinto da letra mais doída
e (bem depois) aceitaríamos o que resolvessem
esperar de nós – a surpresa da normalidade
o chão e a guinada da normalidade

mas a festa – sem que tivéssemos ideia
asas tremidas a partir de nossas sombras
projetadas contra as paredes pela ribalta
que no pano de boca ocupava todos
os lugares do sol – foi a igreja
que construímos dentro de nosso corpo
dentro de nossa alma

festa ainda gravitacional atroz
festa objetos flutuantes mentira de jamais naufragar
festa onde se esconde o malfeitor que lutava
para não ser expelido do tempo
da areia de nossa arrogância
felicidade que liquidifica as memórias
festa lá nunca dormimos

e lá estamos dizendo: é só um momento
é apenas uma festa longe uma sombra longe
alvejada de um sol inofensivo e de uma dor inofensiva
e hoje sempre esta dúvida este não chegar
hoje que se decora pela utilidade
trânsito de formigueiro
cada mínimo grão é tua asa – único/peso/hoje/casa

como as sombras batentes que lá esperam por nós

.

lambe like [como des-
língua bike [grudo-te
pelas bolas [de vós
vagina [como faço
cu de botas [para chegar
do poeta [na sombra?

se tua saliva [como des-
é cola atrás [grudo-te
de mais cola [para ver se
e tua solidão [está excitado
é lenha que [ou se morre
nada afeta [na equipe

ginasta [
sem sombra [controuvem
só língua [controuvê
atrás de língua [controuvá
de sola [
de cura [salivantes [sem reta

nem cus e nem poetas

.

alma estátua
prova incompleta
duma chuva sem cor

uma caça
no brilho da pressa
___ pressa mentira

edição de recreio
motor de nada resta
nesta curva natal

e agora cada hora
é grão daninho
pressa___ resumo aval

e some nesta água
gerações para acordar
nos ombros

palavra sempre festa
nos dobros___ banidos
de nosso inferno

.

regamos a loucura, a bravura
fazemos andar nossa loja de
ossos, nossa fronteira tombada
sobre um fictício carro de gelo
 
regamos com frio nossas palavras
e deixamos seu leilão, suas roletas
polinizarem o papel
de nossas cartas
 
vestir nossos peitos
com o molde
e o braseiro sempre mudo
dos homens-placas
 
nossa voz que recua
porque recua nossa festa –
então sobe a feira agressiva dos nós
que sustentam o mar no longe
 
nosso pescoço urna grega
os braços que não se fecham
e este silêncio
– molhado está o pano
 
no azul menor que descosturou
e descostura
essa lentidão de chegada
esse primeiro véu
 
água que não é corpo
água que forma as palavras
dos pedidos e do socorro
apesar do frio e do sal
 
nosso corpo será regar
achar túneis no funcionamento
desse carro – nosso corpo
esponjas para a madeira
 
ar (necessário) escapando
para encontrar no trânsito
a chuva – batucar de asas
penas verticais
 
como só teimaria
a madeira das
árvores e das ilhas –
casais assim voltando
 
nós porta-fogo
(chance vida)
de oceano engolido
(n)uma árvore

.

dormir – brasa atada a brasa
despejado em caminhão de mudança
(semente que todo presente sem fogo é)

dormir – as medidas da casa que habitamos
sem plástico-bolha
sem feltros sem gota de esperança

enquanto meus ouvidos balançam lâminas e
meus joelhos pesam o que descabe em seu contento
(e pelo resto desse orelhão aplicado a seco)

me deixando casca
de não saber se vida é caminhão parado
se é caminhão movimento

dormir – ferrugem das mãos naufragadas
tatuadas em meus tornozelos
até retorcer lagunas tatuadas de sangue

por dentro do sangue – essa língua
do sonho esse visitante do corpo
água autorizada a correr

pois te dormir – dormir de te fabricar
e te recolher (em brasil) das ausências alheias
e ser húmus nesse encaixe à marreta-arlequim

ácido do esvaziamento que me toma o lugar
enquanto uma solidez de madeira vem brincar
com o luto brasileiro deste sangue – e passeia

e baba (seus bombeiros) dentro de mim

.

Brim

.

Ele se colou na idade deles
A idade deles (de) (antes) de
Dois cordões em temporal e brasil
Elos de armação sem cor
Juntando o fogo E dando
o Fogo para os insetos
Almoço que devora cerda
por cerda a mesma palavra
Lavoura de recíproco enterro
meu jardim grampo De osso e cal

.

desde vinte e dois de agosto de dois mil e três

.