no domingo a festa foi arrumação de partida
a mala que nunca terminamos de aprontar
lá dissemos que era só um momento
labirinto da letra mais doída
e (bem depois) aceitaríamos o que resolvessem
esperar de nós – a surpresa da normalidade
o chão e a guinada da normalidade

mas a festa – sem que tivéssemos ideia
asas tremidas a partir de nossas sombras
projetadas contra as paredes pela ribalta
que no pano de boca ocupava todos
os lugares do sol – foi a igreja
que construímos dentro de nosso corpo
dentro de nossa alma

festa ainda gravitacional atroz
festa objetos flutuantes mentira de jamais naufragar
festa onde se esconde o malfeitor que lutava
para não ser expelido do tempo
da areia de nossa arrogância
felicidade que liquidifica as memórias
festa lá nunca dormimos

e lá estamos dizendo: é só um momento
é apenas uma festa longe uma sombra longe
alvejada de um sol inofensivo e de uma dor inofensiva
e hoje sempre esta dúvida este não chegar
hoje que se decora pela utilidade
trânsito de formigueiro
cada mínimo grão é tua asa – único/peso/hoje/casa

como as sombras batentes que lá esperam por nós

.

desde vinte e dois de agosto de dois mil e três

.