BIBÊLOS DE KUMASAKA
O talentoso fotógrafo Edson Kumasaka fará exposição dos seus trabalhos no Espaço Multimídia B_arco (Brasil artecomtemporânea). A abertura será amanhã.
Se eu estivesse em São Paulo não perderia.
Taí o serviço:
Exposição fotográfica “Bibelôs em Transe”
15 de maio - 20h
De 15 maio a 14 junho
De segunda a sábado - 10h às 19h
Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto 426 - São Paulo - SP
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PÓ ELETRÔNICO
Semana passada recusei um convite para participar de um debate sobre “Literatura e linguagem eletrônica”. A causa principal foi o fato de ter um compromisso acadêmico no dia do evento. De certa forma, fiquei aliviado, porque tenho sido mais crítico comigo e tenho evitado falar sobre o que não vivencio plenamente. Ademais, não sou autoridade nesse assunto, o que faço é testar um e outro caminho, juntando uns vídeos, umas ilustrações, umas trilhas e vendo no que dá. Como alguém já disse, o segredo são as parcerias. Eu acrescentaria: e a diversão.
Eu, Chacal, Marcelo Montenegro e Marcelino Freire estamos organizando, no Espaço B_arco Virgílio, o Vocabulário, negócio que acontecerá ainda este mês. No processo (sempre o processo) tem ocorrido a tradicional e fatigante (embora necessária) série de questionamentos sobre como apresentar a palavra. Claro que o ideal sempre é a inovação, mas quando se fala em inovar é preciso lucidez. Não vejo problema em pegar e fazer, seja a maluquice que for, só não concordo (e por sorte nenhum dos escritores anteriormente citados tem esta pretensão) com a ilusão de estar fazendo O novo.
Esse novo foi feito e refeito muitas vezes ainda na primeira metade do século passado e chegou ao ápice em momentos como o da Feira Mundial de Bruxelas, mais precisamente no Pavilhão Philips, onde se reuniram os talentos de Le Corbusier, Iannis Xenakis e Edgar Varèse - a respeito disso recomendo o ótimo artigo do Celso Loureiro Chaves (veja aqui e, no Wikipedia, aqui e, no Youtube, aqui) - para criar uma das obras mais citadas quando se garimpa as referências mais importantes para a arte eletrônica feita hoje: o Poème électronique de 1958.
Deve ser a idade, a gente vai perdendo a paciência (eu vou perdendo). Só quero dizer aos redescobridores da roda: nessa área, tudo já foi criado, a não ser que se passe a tratar de ferramentas que joguem a obra artística diretamente para dentro do cérebro do apreciador, aí sim a conversa seria outra. O que se tem hoje são variações melhoradas de descobertas do século passado (e, na maioria das vezes, sem o mesmo frescor).
É isso.
Vejam, a propósito, este vídeo adicionado sete dias atrás.
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I MONSTER
Há quatro anos gosto desta banda e há quase isso gosto desta música: “Who is she” (piegas na medida certa).
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SPEED RACER
Com humor e conhecimento de causa de quem é um dos escritores mais importantes desta leva de início de século, Nelson de Oliveira, no seu recente “A Oficina do escritor: sobre ler, escrever e publicar” (São Paulo: Ateliê Editorial, 2008), dá uma dezena de dicas para os novatos ansiosos que pretendem brilhar no mundo literário ainda nos próximos anos (para entender as sutilezas desta lista recomendo a leitura do livro):
1. Organize um grupo de estudo.
2. Organize saraus.
3. Crie um site literário.
4. Publique uma revista.
5. Edite você mesmo seu livro.
6. Funde uma microeditora.
7. Contrate um agente literário.
8. Participe da vida social literária.
9. Participe de todos os concursos literários.
10. Conquiste a simpatia de um escritor veterano.
Hilário, simplesmente hilário.
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ELEFANTE CONCRETO
Fernanda Chemale, autora da foto que está na última edição do “Ainda orangotangos” (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007) e também do excelente “Tempo de Rock e luz”, lança hoje, em Porto Alegre, o álbum de fotos “ElefanteCidadeSerpente”, com textos meus e de uma pá de figuras talentosas, como Deborah Finochiaro, Eduardo Vieira da Cunha, Otto Guerra, Paulo “Plato Divorak” Alex, Wander Wildner, Zoravia Bettiol, dentre outros.
Taí o serviço e o anverso do postal-convite:
ElefanteCidadeSerpente, fotos de Fernanda Chemale
Data: de 8 de maio a 8 de junho de 2008
Galeria dos Arcos – Usina do Gasômetro
Endereço: Av. Pres. João Goulart, 551, Térreo
Horário de Funcionamento: de terças a domingos das 9 as 20h.
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O COLETIVO NOS PROJETOS EDITORIAIS
Não é de hoje minha inclinação pela mistura da literatura com outros meios.
Em fevereiro recebi umas perguntas da jornalista Fernanda Castello Branco, que estava fazendo uma matéria para a revista do Itaú Cultural, tratando da combinação entre literatura e design. As perguntas eram ótimas e me fizeram pensar sobre a atualidade (e concorrência) desses dois espaços da expressão artística.
Algo como 90% do que eu respondi não entrou na matéria, aconteceu o mesmo com os outros entrevistados. A abordagem da Fernanda ficou bem boa.
Confira aqui.
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EILEEN
Daniel Galera me apresentou esta poeta americana chamada Eileen Myles, o livro que ele comprou recentemente tem um título bastante espirituoso: “Sorry, Tree” (Seattle/New York: Wave Books, 2007).
Ela tem uma página, onde é possível conhecer seus outros livros, que têm capas e títulos ótimos. Recomendo.
Seus poemas são difíceis de traduzir, porque muito do jogo que ela cria está no som das palavras - os textos, que são bastante econômicos e sustentados na palavra isolada, não permitem que se faça a transposição para o português sem tirar todo o encanto do negócio.
Peguei este que é um dos mais razoáveis para tradução, chama Therapy (como sempre, aviso que há liberdades e arranjos na tradução).
TERAPIA
Gosto da terapia porque não preciso usar óculos
posso me sentar lá feito o animal que sou
um lindo e honesto animal
uma paisagem de justificativas inquietas.
É impressionante que um artista tenha que usar um recipiente
para orar; e não menos impressionante
que um outro animal escolha ser um recipiente
Tenho considerado a possibilidade de ser um recipiente
em algum momento da minha jornada entre as estrelas
tenho imaginado que mudar as fontes seria uma revolução
minha parada de pé na minha cozinha verde
Por quatro anos estive no mar
tanta coisa foi deixada no velho computador
coisas foram escritas naquele lugar
uma noite sendo cercada
e então ela adormeceu
horas se ajeitando para o dia seguinte
ao invés de fazer o seu trabalho
perdendo a festa depois de tudo
sempre digo vá à festa
o que não significa que faça amigos me retirando mais cedo
Então fiquei e o mar falou em seguida
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POESIA DO DIA
Acabo de saber que foi publicado o livro “Poesia do dia”, organização de Leandro Sarmatz (São Paulo: Ática, 2008, 88p).
Na página da editora consta a seguinte descrição: “Nascidos entre as décadas de 1960 e 1980, os poetas desta coletânea estão mais do que antenados nas mudanças pelas quais o mundo está passando. Seus poemas falam do que todos vêem, ouvem e sentem no turbilhão que é a adolescência”.
Curioso, jamais imaginei que um organizador de antologia infanto-juvenil fosse se interessar pelos meus poemas (quando recebi o convite não me disseram, ou eu não prestei atenção, que seria para o público adolescente). Sinceramente, me sinto lisonjeado e grato pelo convite; sei a dificuldade que existe nas coisas que escrevo (nem alguns dos mais rebeldes acham que a minha escrita é palatável).
Claro, tem a tal pecha, contra a qual já nem me oponho mais, de pop-hermético-violento, mas também tem o reconhecimento do esforço que faço para não ficar no lugar comum - o que, na nossa tradição literária incipiente, é crime sem direito a perdão.
Alguns me acham excêntrico e imaturo; quando não dizem que meu texto é arrogante. Não posso fazer nada, escrevo do jeito que gosto e que sei. Se o conteúdo dos poemas não é facilmente visualizável, sinto dizer, não é dificuldade que, no futuro, eu vá resolver.
As histórias estão lá (e a falta de barganha também: não vou ficar copiando os meus poetas prediletos; ser mais um de seus clones é o pior ataque que poderia fazer a suas obras).
O professor e crítico literário Luís Augusto Fischer diz que meus poemas recentes exigem demais do leitor.
Não real, quando mais você avança mais sozinho fica.
Estão comigo na coletânea: Alberto Pucheu, André Dick, Bruna Beber, Danilo Monteiro, Diego Vinhas, Elisa Andrade Buzzo, Fabrício Carpinejar, Fabrício Corsaletti, Joca Reiners Terron, Marcelo Camelo, Mário Bortolotto, Paulo Scott, Paulo Seben e Rodrigo Petronio.
Mais detalhes: aqui.
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EU, ENQUANTO JOVEM CANSADO
Tempo atrás disse que blog é ponto de venda, depois que postava para tirar uma onda com o mundo das literatices e, por fim, que ainda pairam dúvidas sobre o real talento desta (minha) geração de escritores.
A escolha de ter um blog e ousar determinadas afirmações é um modo irônico de desmitificação da literatura (ora, eu cometo literatices, Machado de Assis cometeu algumas, raras, James Joyce et cetera). A pluralidade de milhões de blogs reforça esse contexto. Mesmo no excesso quantitativo, todos ganham.
Ademais, critérios definidores do que é bom são sempre critérios parciais, são subjetividades.
Os critérios dos editores das revistas, jornais e das próprias editoras de livros são inevitavelmente parciais e limitados. É muito difícil identificar e contemplar, no plano do absoluto, o que verdadeiramente há de melhor.
Concursos e prêmios literários também são assim. Há uma comissão e a partir da biografia, dos preconceitos, das inquietações e carreirismos daquelas pessoas escolhidas se chegará ao julgamento que definirá o melhor de todos.
É um universo bastante frágil.
Vez e outra alguém me escreve pedindo conselhos e dizendo que me admira por eu ter conseguido “chegar lá”. Diz que admira os meus projetos e me parabeniza por terem sido eles “ótimas estratégias para me tornar conhecido”.
Tendo a pensar que comentário dessa ordem é ponto de vista de quem, de fato, me respeita, mas não sei exatamente se na condição de escritor. Até hoje não recebi nenhum convite de editora baseado, em maior ou menos grau, nos meus projetos (que faço por pura diversão).
Toda rara vez que surgiu um convite foi da seguinte forma: li o seu livro, gostei, minha editora está interessada nos teus futuros trabalhos, você tem alguma coisa inédita para me mostrar?
Quero dizer que: se você escreve, o momento da produção é o que vale toda a empreitada. Editoras, prêmios, matérias com foto nas revistas são coisas importantes, mas não injetam qualidade dentro de nenhum texto, de nenhuma obra.
Perseguir uma estética própria, original, consistente, apesar das falhas que sempre há, sinceramente, é só o que interessa (não suporto esta conversa de que a estética não vale nada; se não vale então vá escrever noutra área; uma boa idéia não sustenta nada, importante é como você vai contá-la).
Todos querem mostrar seu trabalho e ser conhecidos (eu também quero), senão nem teriam blogs. Mas o juiz do que você faz tem de ser você mesmo - e como isso é difícil. No final das contas e para responder de vez ao que, desavisadamente, me pede dicas de sobrevivência no mundo literário (diabos, quem sou eu pra isso?), acho que é na perseguição que está o frescor: vai do jeito que mais te anima. A vitória, o reconhecimento são bons, mas envelhecem, faça você o que fizer, pague o preço que pagar pelo maldito hype, admita, os prêmios sempre envelhecem.
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NA TÁBUA (DÉCIMA SEXTA EDIÇÃO)
Douglas Kim
Eduardo Haesbaert
Fabio Zimbres
Flavio Ilha
Paulo Scott
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TRÊS SÁBADOS
Tenho uns amigos que se reúnem três sábados seguidos para jantar, numa espécie de janta emendada ou janta dividida em três atos: a seguinte começa do ponto onde a anterior terminou. As comidas são congeladas, as bebidas são guardadas e tudo prossegue de onde parou. Novos pratos podem ser preparados, claro, sem o descarte dos antecessores. As conversas, em tese, também são retomadas (com todos os agravantes da semana que serviu de intervalo). A trilha sonora da bizarrice, dentre outras menos emblemáticas, são as músicas da banda escocesa Arab Strap (uma das minhas preferidas).
O Arab Strap faz músicas introspectivas mescladas com crítica-irônica, sordidez e apelo sexual. Gosto de bandas que têm apelo pop e ainda conseguem manter uma vivacidade melancólica.
Não quero ser pedante, mas melancolia e vivacidade formam uma combinação difícil. Na literatura brasileira contemporânea quem melhor conseguiu isso, na minha opinião, foi o Luiz Sérgio Metz, nas tantas vezes que narrou o pampa sem o tradicional recalque.
A Escócia é melancólica e não é recalcada (as pessoas lá são legais, diferente dos parisienses que são bastante recalcados e não são melancólicos). Eu gostava da idéia do Rio Grande do Sul ser a Escócia do Brasil, principalmente por não ter tal afirmação outro fundamento que não o puro e simples impacto estético da frase.
Lembro de um dia em que eu e meu irmão fomos até o Loch Ness com duas amigas, era um final de tarde. Foi a paisagem mais melancólica que presenciei na vida. Estava começando a nevar, tirei as botas para molhar os pés, fiquei olhando a névoa que pairava rente às sinuosidades do lago.
Depois, quando os três já estavam irritados de tanto me esperar, fomos até um café, onde pedimos chocolate quente. Nas caixas de som estava tocando “It’s my life”, da banda inglesa Talk Talk.
Melancolia é uma espécie de embriaguez. Por alguns minutos aquele céu do Loch Ness me pareceu o de Porto Alegre (nos raros dias de cerração ou quando faz frio e está para escurecer; assim como neste exato momento). Não adianta, levamos nossa casa pra qualquer lugar aonde formos.
Até onde me lembro, foi nesse dia em que depois de uma conversa com meu irmão abandonei categoricamente uma convicção política que, até então, era para mim bastante importante.
Quando pegamos a estrada de volta para Londres, coloquei Talk Talk no toca-fitas do carro (Talk Talk era o Arab Strap de 1989; ano em que eu desdenhava de quem dissesse que eu levava jeito para escrever).
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APERTE “ORDINÁRIO, MARCHE” PARA INCENDIAR
Tenho pesquisado e lido muitas poesias para o tal projeto Orquestra Literária, tenho lido a ponto de enjoar, principalmente daquelas que dizem ao leitor o que fazer: meu amor faça isto, faça aquilo, plante uma árvore, dê um sorriso, beba até morrer, suma na estrada, ouça o canto dos… Poesia que dá ordem é o fim da picada.
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DO MESMO JEITO
Algumas pessoas idolatram Porto Alegre. É fácil entender. Entre figuras estranhas e carismáticas capazes de se acotovelar nuns dos metros quadrados mais competitivos, neuróticos e criativos do país, aqui vive Júpiter Maçã.
O sujeito, sem qualquer favor na eleição, é dono de uma das obras musicais mais consistentes e instigantes desta primeira década do século.
Coisa de ano e meio, passou a circular na internet esta composição chamada “As mesmas coisas”, que está no recente “Uma tarde na fruteira” (Monstro, 2008); a música não sai da minha cabeça e, ainda por cima, tem a manha de ironizar a nossa sutil (extremamente rica e complexa) incompatibilidade com Portugal.
Copiei a letra aí, e abaixo um youtube disponibilizado há três dias.
Nós gostamos das mesmas coisas
Nas pessoas os seus amores
Apreciamos nas flores as cores
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola
Nós usamos as mesmas roupas
Nós gostamos dos mesmos discos
E, nos filmes, a trilha sonora
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola
Nós dançamos do mesmo jeito
Os cabelos do mesmo jeito
Nós amamos os mesmos amigos
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola
Nós fazemos as mesmas coisas
Nós falamos as mesmas coisas
Nosso idioma é a mesma língua
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola
Eu vou mandar um bilhetinho
Por terceiros com carinho
Vou fazer um convite bacana
Mas, meu amor, a gente junto não rola
E você sabe, meu amor, não rola
E você sabe, meu amor, não rola
E você sabe, meu amor, não rola
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INVERNO
O outono ainda ensaia por aqui. Mas a luz dos fins de tarde já vale cada segundo de vida e lucidez. Tenho um tempo enorme para fazer o que eu sempre quis: escrever. Mas escrever não pode ser um emprego (a música não pode ser emprego, costuma dizer o genial Edu K). Por isso não tenho escrito por obrigação, por mais que os prazos estejam apertados.
Hoje meu maior medo é perder a ignorância que te dá aquela valentia para escrever como acha que tem de ser. Dominar muito a técnica (e isso é inevitável, por mais tosco que você seja) traz uma autocrítica improdutiva. A ignorância que você perdeu jamais encontrará de novo. Estou começando a entender o que essa frase significa.
Sempre é bom presenciar o trabalho de um novato (talvez por isso eu gaste tantas horas com autores brasileiros que ainda não publicaram ou recém publicaram), porque se ele for um hardworking de verdade e não afrouxar para os canônes, dali, daquela estréia, pode sair coisa boa, coisa que mexa e sacuda o pó que vai se acumulando sobre os ombros.
No final de semana que vem eu deveria estar em São Paulo e deveria assistir a peça do Sergio Mello (ele um novato no teatro, embora não na poesia), que chama “Aos ossos que tanto doem no inverno”. Minha intuição me diz que vale a pena. Infelizmente, o que eu iria fazer lá foi cancelado e não tenho como bancar uma passagem só para assistir a peça. O negócio é eu aguardar, mas vocês de São Paulo podem ir, parece que é a última semana.
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MAGOO
Concordo. As letras são apertadas mesmo. Para quem tem dificuldade recomendo o zoom da página em 125%. O modelo do blog permite. Tenta que funciona.
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MÁ INFLUÊNCIA
Finalmente terminei de ler o “Bad influence”, do William Sutcliffe (London: Penguin Books, 2005). Comprei o livro no final de 2005 e li as primeiras cento e trinta páginas em pouquíssimo tempo, mas depois abandonei. Daí que na semana retrasada retomei a leitura sem interrupções.
Sempre lembro do “Senhor das moscas”, do William Golding, quando aparecem cenários onde transcorre a maldade infantil. O “Mãos de cavalo”, do Daniel Galera tem um pouco disso. A infância sempre carrega as suas tragédias - e os escritores sempre carregam suas infâncias, mesmo quando fogem delas - e toda vez que (ou: muitas vezes quando) um adulto se vê em situações-limite (as de sociabilidade seriam as mais comuns) tende a reagir como criança.
A violência e os vícios adultos são infantis, há coisas não-resolvidas (ou que parecem resolvidas), que num contexto propício podem desestabilizar. Alguns poemas do “Senhor escuridão” (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006) flertam com essa possibilidade, com essa instabilidade, tratando-as, por vezes, como pesadelos.
Não gosto do rótulo romance de formação. O homem está sempre em formação, prefiro a idéia de romance de causa, não que isso tenha qualquer importância.
Parece que o “Bad influence” foi traduzido para o português, vou conferir na Cultura daqui a pouco. Se foi mesmo, torço para que a tradução tenha mantido as sutilezas do original (não, não é trocadilho). A propósito de tradução: não gostei da tradução brasileira do “A estrada”, do Cormac Maccarthy, que é um autor que pode ser banalizado com facilidade se não detectados certos detalhes da sua prosa tão seca (seca demais, eu diria, embora com alguma genialidade).
Uma das soluções narrativas do “Bad influence” é a inserção de ilustrações de página inteira em meio à prosa. Acho que essa estratégia pode funcionar muito bem. Depende do conjunto. Simpatizei bastante com algumas, com outras bem menos.
No momento, tenho personagens que vivem num cenário parecido com o do “Bad influence”. A infância é sempre universal. Imaginário caótico. Alice. Tenho arquitetado um pequeno abismo de maldades infantis, que me fazem percorrer as (poucas, é verdade) maldades da minha infância. É a primeira vez que confronto minha memória desse jeito.
Sempre tem uma primeira vez (não, não é auto-biográfico), embora no universo literário ela (a primeira vez) sempre desapareça: escritores nunca são inocentes. Há uma exótica predileção pelos resquícios, detalhes que para outros simplesmente ficam para trás.
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