então pinta a sala com molho de tomate e forra o piso com tabletes de chocolate ao leite, cospe na dicção de pierre bergé, inventa dias mais rápidos, conversas mais rápidas, jantares mais rápidos, trepadas mais rápidas e faz amizade com os botões metálicos do caixa eletrônico vinte e quatro horas da avenida a cem metros do seu prédio, lustra-os, acompanhando o desempenho luminoso do monitor, os pinos de preencher, o funky brasileiro que salvou o escândalo do rock e por isso é o novo rock, arriscando ônus de taxa extra de utilização, e reutilização, talvez apenas pelo prazer da luminosidade canicular de operador de vídeo e show para si mesmo e do som dos carros passando em direção à praia de botafogo; escrever é um tipo de macumba e o vermelho máximo absolutamente adorável dos comprimidos do alginac mil a cada seis horas é tipo assim uma coisa igual a um lanchinho de pé e de frente olhando a passarela no camarote da marca de chope da beldade aquela baita namoradinha do país que disse já dei o popô; os jovens compram bebida, carrego um supermercado de lactose e glúten, os jovens dão umas voltas, pegam mais dinheiro, compram mais bebidas, dão mais voltas enquanto as meninas dizem para si mesmas que não ficarão machucadas; os jovens querem entender o que é diversão; turmas são a novíssima santa girafinha do miolo mole; tudo é novíssimo e os caras não se chamam mais de cara, eles se chamam de vara: e aí, vara, vamos fazer uma vaquinha e pegar outra garrafinha, vara?; e você é o que procura o sol para narelle e precisa voltar para casa, pós-orbital, austrália, e pensar e reescrever

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precisa de três quartos do dia para a devida recuperação
todo o seu poder vem do controle absoluto que possui
da geografia do lugar onde atua defendendo os fracos

piloto de provas que só consegue ser mais rápido e ousado
do que os outros naquela sua pista de ângulos impossíveis
: ensaia todas reações imagináveis e isso o exaure

sabe o quanto é nocivo quando não está se esforçando
para ajudar : sua autodestruição recorrente é seu calmante
os elogios viram a gordura que jamais sairá do fígado

as impossibilidades desse palco são a prova de seu medo
ele sabe que salvar os oprimidos não passa de coreografia
e como todo o resto algum dia também será esquecida

(sangue na roupa) heroicidade que não passará de ano

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ela 051 – Tá acordado?
ele 021 – Sempre.
ela 051 – Você poderia me passar o endereço do Spike Lee pra eu enviar cartas?
ele 021 – Do Spike Lee? Não tenho.
ela 051 – Eu estava certa de que você tinha conseguido.
ele 021 – Conseguido quando?
ela 051 – Numa dessas vezes em que você viajou pra fora do país.
ele 021 – Do Spike só tenho o magnético que está na porta da minha geladeira.
ela 051 – Mas nem da vez em que você viajou com o seu irmão?
ele 021 – Pois é. Não.
ela 051 – Isso que dá eu ser assistente da aspirante à escritora mirim.
ele 021 – Aspirante? Acho que todos nós somos aspirantes.
ela 051 – Mas você é um pouco menos do que eu.
ele 021 – Depende do ângulo.
(pausa curta na troca de mensagens)
ela 051 – Mas me diz…
ele 021 – Estou aqui.
ela 051 – Fausto e Sabrina ficam juntos no final?
ele 021 – Quer mesmo saber?
ela 051 – Muito.
ele 021 – Não, não ficam.
ela 051 – Então não vou ler o final.
ele 021 – Nem sei o que te dizer.
(outra pausa curta)
ela 051 – Você e o Spike Lee me pagam.

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as salsichas da marca ceratti precisam ferver até que a capa que as reveste se desprenda, o gosto fica muito melhor (e é possível voltar a Viena naquela vez em que aleatoriamente sentamos num bar da Azenha e fizemos a caveira); às vezes a capa não se desprende, então você precisa retirá-la com paciência, isso pode ser feito com cuidado ou às pressas, tanto faz, a diferença estará unicamente do estômago de quem irá comê-la após executar o processo de remoção; às vezes, a contragosto, um jeito que cultuamos há anos precisa ser removido; às vezes é preciso querer muito acordar feliz e não fazer nada de útil ou que esteja agendado há semanas ou seja rotina até se ficar feliz de fato; ninguém sabe o que é a felicidade (ok, às vezes se sabe), mas todos sabem o que é a infelicidade e como se pode por meio de processos musculares manter a devida distância; empurro com força o paraíso (o paraíso é a sua forma de musculação), recorto os navios de papel para a guerra que deveria ser o horizonte; refaço as plantas da fábrica de iglus; tudo precisa funcionar até maio; olho as dobraduras que você deixou dentro das revistas que separei para ler e desenhar crianças quando tudo isso acabar; canto “músicas pequenas”, a que me fez escrever um romance; um livro de filosofia não passa de uma coleção de receitas de bolo; tento esquecer os processos de vinganças que arrolei num caderno escolar comprado na segunda-feira passada, tento simplesmente esquecer (o fogo da vingança foi a primeira máquina de sorvete no palito); no livro de receitas havia esta frase “nunca se alimente durante a brincadeira da proximidade; pare de ser criança”; todos sabem que a proximidade só ocorre quando precedida de um inquestionável período de solidão; pessoas guardam outras pessoas na manga, o que não é recomendável pelo simples fato de que guardar pessoas na manga é feio; não seja feio/a; estou comendo um pacote de salsichas ceratti porque a geladeira estragou, por cima joguei tudo que não podia perecer; o silêncio entre duas pessoas que não se decidem é uma forma de perecer, por isso é recomendável que ao menos uma dessas duas pessoas continue falando com a outra, tudo é ciclo, um dia a que ficou quieta voltará a falar; é necessário dizer que essa não é uma formulação filosófica; gosto de observar as correntes e os grupos; de que espécie de corrente estou falando?; vá ao quadro ou à parede branca mais próxima (sim, é parte da brincadeira da proximidade) e escreva: havia esse animal sacudo que andava acorrentado a todas as partes despedaçadas do mundo, primeiro vinham os ninhos de coruja em terrenos de praias de Santa Catarina e os hálitos “categoria ferro de passar mergulhado em espumante” das manhãs depois das grandes festas e, em seguida, os nossos dois nomes completos (jamais segurando os filhos), as panelas de ferver comida quando as geladeiras estragavam e as camas recém-postas sobre as quais nunca era possível se equilibrar, também o calor; garrafas de água mineral petrópolis; vacilante, uma lista interminável

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e o que fazer do acaso e dessa discrepância que arquiva tudo em gelo seco
fusos matinais dentro dos quais ainda não se acordou direito e são enormes
as probabilidades de trocar teu nome pelo de outra pessoa e negar que não
há espaço para esse nosso entrosamento e nossas dispensas de almoço
quando caminhamos até o lugar onde você ensaia e falamos em voz baixa
(para a cidade não notar) antiépicos e como se quiséssemos desde o início

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mas o vazio com todas as forças

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agora (engula essa água da praia) pode entrar

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desde vinte e dois de agosto de dois mil e três

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